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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

resenha do livro Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea

A POESIA QUE DESAFINA O CORO DOS CONTENTES


Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea (São Vicente: Edições Caiçaras, 2011) é uma antologia organizada por Marcelo Ariel que reúne sete autores jovens, que vêm publicando seus poemas em blogues, sites e revistas eletrônicas como Germina, Pausa e Zunái. A internet é o veículo mais atualizado e pluralista para a divulgação da poesia, e nela encontramos as vozes criativas e inquietantes de nossa produção literária, que chegam aos leitores sem a mediação dos cadernos culturais da imprensa diária, cujos critérios de escolha são influenciados pelo lobby das grandes editoras e pelas tendências hegemônicas na política literária. Não encontramos hoje veículos como o Jornal do Brasil dos anos 50, que contava com críticos como Mário Faustino, ou o Folhetim dos anos 80, que publicava resenhas de Paulo Leminski. Quem estiver em busca de informação estética nova ou de reflexão crítica atualizada perderá o seu tempo folheando as páginas da Folha de S. Paulo ou da revista VEJA, mas encontrará diferentes vozes, estilos, temas e mitologias criativas no ciberespaço.

Na apresentação da Pequena Cartografia, objeto artístico artesanal com o belo projeto gráfico elaborado por Márcio Barreto, o organizador da antologia diz: “A internet possui muito do artesanal e se harmoniza com práticas de edição como a desta Edições Caiçara, a internet é um esboço dos circuitos telepáticos do cérebro, trata-se da costura de fios visíveis e invisíveis. Nesta seleção que é uma pequena tentativa de realizar um recorte pessoal do que considero o mais representativo da poesia brasileira contemporânea, poemas de Marceli Andresa Becker, Katyuscia Carvalho, Lucila de Jesus, Ângela Castelo Branco, Maiara Gouveia e Daniel Faria formam este pequeno livro, pequena tessitura, que na verdade é a construção de um pensamento sobre a poética dos autores selecionados e sobre a minha própria poética, porque esta fronteira entre nós e os Outros foi a primeira a desaparecer quando alguém disse a palavra ‘Poeta’ pela primeira vez”.

O depoimento do autor, que reproduzimos aqui, merece destaque por desmistificar o suposto “distanciamento” ou “neutralidade” que alguns acreditam ser o princípio regulador de tais escolhas; nenhuma antologia é neutra, nenhuma é definitiva ou imparcial. Toda mostra é parcial, deriva de conceitos estéticos e critérios de gosto pessoal de quem a organizou. Longe de ser um pecado heurístico, peculiar às obras do gênero, a parcialidade é uma confissão de honestidade e de rigor intelectual, que não admite concessões: toda escolha de autores e textos criativos é uma operação crítica, é uma visão curatorial da produção literária de um período, e como tal deve tomar partido, sim, elencando os trabalhos de mais destacada elaboração estética, de acordo com os princípios teóricos, metodologia e grau de subjetividade do curador.

Todas as antologias são incompletas e sujeitas à discussão; por isso mesmo a existência de diferentes recortes críticos de um mesmo período histórico é enriquecedor, não apenas para a batalha de ideias, o confronto de diferentes teorias, mas também para a correção de eventuais exclusões, causadas, não raro, pelo desconhecimento. Não é possível avaliar todos os poetas de uma determinada geração sem um distanciamento temporal, para que o crítico possa consultar o conjunto da obra de cada autor, as revistas literárias publicadas na época, antologias, resenhas e outros textos que forneçam sinais luminosos sobre a produção do período. A empreitada de Marcelo Ariel é altamente arriscada exatamente por isso: ele se dispôs a fazer uma pequena cartografia do que se faz hoje pela mais nova safra de poetas brasileiros, quase todos sem fortuna crítica e inéditos em livro. Esta é uma intervenção cultural perigosa, e ao mesmo tempo excitante e necessária, que apresenta para nós um pequeno número de autores significativos, que trabalham a linguagem poética de modo consistente, rigoroso e inventivo.

Quase todos os poetas incluídos por Marcelo Ariel em sua breve antologia revelam um certo grau de hermetismo, derivado de leituras de Heberto Helder, Paul Celan, Lezama Lima e do Neobarroco: é o caso, por exemplo, de Daniel Faria (“Sangue / de espelho líquido. // Os intermináveis gestos / opacos / da cidade que se joga / sobre os meus braços”) e de Marceli Andresa Becker (“a fome que tenho se come / porque há saída nenhuma / na voz”). Pertencem a esta mesma linha criativa poetas como Andréia Carvalho, Diogo Cardoso, Adriana Zapparoli e Roberta Tostes Daniel, que mereciam estar incluídos neste volume.

O “artesanato furioso” (Marino) de nossa poesia mais recente tem revelado uma força semântica e imaginativa que contrasta com a lírica morna e insossa da linha coloquial-cotidiana, hegemônica nos cadernos culturais, que tem como ícone o livro Elefante, de Francisco Alvim, que recicla o poema-piada e o poema-crônica-de-jornal já exauridos em nosso Modernismo, quase um século atrás. Desafinando o coro dos contentes, a poesia jovem traz de volta as imagens fortes, ambíguas, monstruosas, os ritmos sensoriais, o léxico inusitado e a invenção sintática, levando a poesia para o seu terreno natural, o da encantação e do estranhamento. Quem tiver dúvidas de que a poesia é uma forma de magia, que leia com mais atenção os versos de Marceli Andresa Becker: “inviolado pelo espelho. / (mas se cantar / é cantar contra ouvido e pele, tempo de fibras, / mas se beleza é tu contra carne, / então cantar, cantar, pra te fazer / pedaços)”. Ou ainda, de novo, Daniel Faria: “só se for na beira da praia, lá dentro / a pura monotonia, os dentes da maresia, / que absolutamente não canta, saltam do verde e liso mar / e ferem seus olhos, lambem seus dentes, apodrecem sua boca”.

Em outros poetas incluídos na Pequena Cartografia, como a carioca Camila Vardarac, encontramos o poema em prosa de imagens rápidas, alucinadas, o discurso em jorro contínuo, que de imediato nos remetem à poesia beat e ao surrealismo; porém, há algo mais na escrita da autora, que sugere um diálogo com a estrutura comunicativa dos novos meios eletrônicos, como se palavras e frases fossem os cenários de um videoclip: “cotovelos sobre cacos de vidro retêm as palavras enquanto o / sangue foge, desenho as letras do seu nome dentro do coração / transformado em origami de caveira”. Imagens rápidas e fortes de um brutalismo que se aproxima ainda das artes visuais (lembremos aqui de Francis Bacon e do traço sombrio de quadrinhistas como Bill Sienkiewicz). Uma poeta que dialoga com o simbolismo, o surrealismo, a lírica portuguesa e os seus próprios gritos interiores é Katyuscia Carvalho, capaz de criar metáforas intensas e raras como estas: “Aprofundar interiores / Inconter silêncios / Apalpar um grito que / não terminou / amputado por alguma canção / que soou mais profunda” ou ainda “Um dia encontrarão / os fósseis rupestres / de uma saliva já extinta / virão tradutores / e ólogos e istas / capitalizarão: / (beijos cravados na rocha)”.

Ângela Castelo Branco, poeta e artista plástica, resistiu à tentação de simular paisagens na escrita, fazendo a sábia escolha de pintar o pensamento com todas as flores da fala. A sua poética é a da música do pensamento, mais irônica do que metafísica, mais fragmentária do que sistêmica, e nela recolhemos versos de alto impacto como estes: “Feito: costura de retalhos. Chão sujo de fiapos, retirar o que / não é composição. (...) / Qual o instrumento, qual o instrumento que acontece uma mulher?”

A construção minimalista, voltada ao retrato fragmentário de paisagens, objetos e sensações, mas evitando reverberações estilísticas derivadas de uma leitura ingênua da Language Poetry, está representada na poesia de Maiara Gouveia e Lucila de Jesus, poetas que elaboram artesanatos de alta densidade semântica. Em Lucila, há uma presença maior do humor, da ironia, do paradoxo e do non sense, como nestas linhas: “Os velhos e / as formigas / são invisíveis”; “O amor ansiado / é negro / branco / e amarelo”; “Tudo o que sei / sei sem saber. / Não aprendi, / só encontrei. / É que nasci / com os tendões / hiperextendidos”. Maiara, por sua vez, é mais elíptica, lacônica, não recusa os desafios da sintaxe e nos apresenta insólitas construções verbais, como esta: “escamas de peixe / medeias em fuga / cabelos vivos / no côncavo dos séculos // (a música) / de águas-medusa / guelras / ou ábaco líquido / (a mística do cálculo) / em ondas, em orlas / linhas tortas inúteis // onde o livro-transparência / arde / até os rins”.

A breve seleção de poemas organizada por Marcelo Ariel é sedutora, instigante e nos faz pensar sobre os augúrios das sibilas do apocalipse, para quem a poesia brasileira contemporânea está sempre “em crise” – estratégia de legitimação do cânone estabelecido pela negação insípida da poesia mais recente. A Escola do Ressentimento, que tanto mal faz à nossa crítica literária, é desmentida por obras inteligentes e corajosas como a de Marcelo Ariel, que nos brinda com uma feliz reunião de poetas e poemas.


publicado em http://cantarapeledelontra.blogspot.com/

quarta-feira, 30 de março de 2011

Resenha em forma de carta:


Lila, gostaria de escrever o que senti na leitura do seu livro. O livro acontece dentro de uma materialidade da memória, é como se nele a memória se convertesse em uma força intermediária, a de um sentimento de empatia tão poderoso que é capaz de nos transportar para a realidade da fala. A sua fala ali é a fala de uma narradora que se dilui sem nenhum distanciamento, é uma fala-câmara, e o tempo (os tempos) do livro são tempos de um documentário.


Me lembrei de alguns globos repórteres memoráveis que assisti nos anos 70, quando o Eduardo Coutinho trabalhava na Globo. Em você, no seu modo de narrar, também senti um modo de deixar o sentimento pensar para focar o outro que fala, que está falando, e assim o livro vai se encadeando como uma dança, entre o documental e o ensaístico, com ênfase no documental em alguns momentos e o ensaístico servindo mais como indicador de um modo de ver e de um tipo de interação que não se distancia.


A parte dos sonhos foi a que mais me emocionou (porque você sabe, nossa amizade na borda do amor e não da paixão apenas, começou com o sonho e é nele que certamente está o centro dela, com espaço entre o sentimento e os atos), pois o respeito profundo que você tem pelo sonho como fonte de conhecimento e a reverência que você consegue transmitir ao leitor, reverência por (como você diz) uma escuta que foi tão profunda, que ecoou (a palavra não é bem essa, mas não encontrei outra) ecoou dentro do seu mais íntimo, ecoou na fonte, onde a alteridade se dissolve e a comunicação atinge sua mais alta sensorialidade (também não sei se a palavra é essa).


As evocações-citações ( uma coisa que me é cara) estão lá, Ponty, Winnicott, Weil, mas elas são ( senti isso) também parte do seu mais íntimo. Digamos do seu mais íntimo-exterior-pensante, enquanto que aquela realidade, você a deixou penetrar tão fundo que chegou ao ponto delas se converterem em imagens de sonho. Entendi o titulo do livro, após a leitura, não como se a fronteira fosse uma demarcação, que separa mundos e situações, mas como se ela fosse o princípio, o ponto de partida que sempre temos de atravessar se quisermos realmente encontrar o Outro. As Casais aparecem ali como metáforas desse ponto, para mim.


E seu livro atinge, na minha leitura, o estado de matéria para uma, etnopoética do outro, pois você, enquanto uma narradora, sem o distanciamento de um pesquisador, por dentro, mas com a atenção dos pesquisadores, por fora, alcança uma atenção amalgamada com o sentimento e a vontade de estar ali e escutar. Gostei muito do livro. Foi necessário que eu ficasse sozinho com ele em uma zona neutra que não meu quarto em Cubatão e nem “a sua presença que reluz muito forte para mim”, para que conseguisse fazer uma leitura mais concentrada, como a que faço quando vejo um filme. É isso. Tentarei te ligar agora...já são meia noite e pouco...


Um beijo


Marcelo Ariel



publicado em
http://teatrofantasma.blogspot.com/2011/03/resenha-em-forma-de-carta.html

terça-feira, 1 de março de 2011

be poetry


A origem dos poemas





Marcelo Ariel


Um livro raro e delicado escrito por uma menina de sete anos, este Poemas divertidos de Flora Santos ( Editora Nossa, 2009). Escapa da conceituação de "livro infantil" que no fundo é limitadora, como toda conceituação. É como se o Livro das perguntas de Neruda estivesse latente dentro desse jardim "fechado" para os adultos. Lendo ou melhor passeando dentro do livro é fácil sentir que as perguntas que as crianças fazem são na verdade uma abertura para o poema possível que a extrema (des) organização da vida cotidiana sempre adia ou contorna. O livro de Flora Santos é um indicador do lugar originário do poema, o poema está onde sempre esteve à espera de uma escuta e este livro é a materialização dessa escuta. Janus Korczac, o pedagogo polônes, morto nos campos de concentração, autor de Quando eu voltar a ser criança e Rei Mateuzinho Primeiro, defendia que a pedagogia em essência fosse o lugar da escuta e do diálogo, Korczac certamente festejaria iniciativas como a da mãe da Flora, que selecionou os textos da filha e editou o livro por conta própria é um exemplo que deveria ser seguido, esse de tornar o exercício de uma escuta, o reconhecimento do lugar originário dos poemas.

POEMAS DIVERTIDOS de Flora Santos
Editora Nossa, pedidos pelo e-mail: lucilajmg@gmail.com



publicado em
http://revistapausa.blogspot.com/2010/03/origem-dos-poemas.html#links